Empresas aceleram adequação à NR-1, mas execução das ações ainda gera dúvidas

Com entrada em vigor em 26 de maio, a norma traz desafios às empresas; o preparo das lideranças é apontado como um dos principais, segundo a Howden Brasil

A poucas semanas da entrada em vigor das atualizações da NR-1, que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho e reforça a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), empresas avançam para cumprir as exigências relacionadas ao tema, com foco na estruturação do diagnóstico e na definição de planos iniciais. A etapa seguinte, no entanto, ainda gera dúvidas, especialmente na implementação das ações no ambiente de trabalho. A avaliação é da Howden Brasil, filial da corretora global especializada em seguros de alta complexidade.

Segundo Cláudia Machado, VP de Benefícios da corretora, o movimento das empresas tem se concentrado no atendimento das exigências imediatas da norma, muitas vezes com foco no cumprimento do prazo inicial. “As empresas vêm se mobilizando para atender o prazo, principalmente na construção do diagnóstico, se blindando de uma possível primeira multa. Esse é um passo fundamental, mas a transformação desse mapeamento em ações práticas ainda é um ponto de atenção para muitas organizações”, afirma.

Para atender à norma, as empresas precisam ter estruturado até maio o diagnóstico dos riscos psicossociais, a matriz de riscos, e atualização em seu PGR, além do registro das informações no eSocial.

A partir desse diagnóstico inicial, a norma prevê a definição de um plano de ação com priorização dos riscos identificados e cronograma de execução. “As ações não precisam ser implementadas neste primeiro momento, mas precisam estar estruturadas. É justamente nessa fase que muitas empresas ainda buscam clareza sobre como avançar”, destaca Sílvia Prinholato, Diretora Médica da corretora.

Segundo Cláudia Machado, as organizações estão em diferentes níveis de maturidade na adequação à norma. “Algumas iniciaram pela sensibilização das lideranças, outras avançaram na construção de inventários psicossociais e há aquelas que já ampliaram a comunicação sobre o tema para toda a organização. Ao mesmo tempo, parte das empresas ainda acompanha os desdobramentos da regulamentação, incluindo a possibilidade de um novo adiamento, o que influencia o ritmo de preparação”, ressalta.

Lideranças entram no centro da agenda

Para a Howden Brasil, um dos principais desafios para as empresas está na preparação das lideranças para lidar com o tema no dia a dia. “A norma traz um olhar mais estruturado para questões relacionadas à gestão de equipes, pressão por resultados e prevenção de situações de assédio. Isso coloca naturalmente as lideranças no centro dessa agenda. Existe um movimento crescente de conscientização de que resultados sustentáveis estão diretamente ligados à forma como as equipes são conduzidas. Mas como mobilizar o corpo diretivo para entender que não é possível gerar resultado em um ambiente com risco de adoecimento? Este é o grande desafio”, destaca a VP de Benefícios.

Além disso, o cuidado deve se estender aos próprios gestores, como pondera Sílvia Prinholato. “A liderança também está exposta a níveis elevados de pressão. Preparar esses profissionais para cuidar das equipes e, ao mesmo tempo, ter suporte adequado, é essencial para evitar efeitos em cadeia.”

Outro ponto de atenção é a definição de prioridades. De acordo com Sílvia, os riscos psicossociais podem afetar toda a empresa, mas também podem estar concentrados em áreas específicas, o que exige direcionar as ações para onde o risco é mais relevante.

A gestão de casos de assédio, por sua vez, também requer maior estruturação, especialmente diante de possíveis auditorias. “É importante que as empresas tenham treinamento comprovado sobre o tema e processos bem definidos para apuração de denúncias, com registro de como cada situação foi tratada”, afirma.

Para a Diretora Médica da corretora, a implementação da norma também reforça uma mudança mais ampla na forma como a saúde mental é tratada no ambiente corporativo. “Ainda existe um tabu importante quando falamos de saúde mental nas empresas. Historicamente, esse tema foi visto como uma responsabilidade individual, mas esse olhar está mudando, e a tendência é que as empresas passem a tratar a questão de forma cada vez mais estruturada”, conclui.

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