Avanço do câncer na AL transforma a gestão de saúde
O avanço do câncer na América Latina deixou de ser uma discussão restrita à saúde pública e passou a impactar diretamente a estrutura de custos das empresas. Dados do Observatório Global do Câncer (GLOBOCAN) indicam que, em 2022, a região registrou cerca de 1,5 milhão de novos casos e aproximadamente 700 mil mortes, o equivalente a 7,6% da incidência global.
A tendência é de crescimento, impulsionada pelo envelhecimento da população e por mudanças no perfil epidemiológico. Segundo análise da Lockton, conduzida pelo time de People Solutions & Analytics LATAM, esse movimento, aliado ao perfil dos tipos de câncer predominantes, amplia a complexidade dos tratamentos e os impactos financeiros para as empresas, exigindo uma abordagem mais estratégica na gestão de riscos e benefícios.
Na América Latina, câncer de mama, colo do útero e colorretal entre mulheres, e próstata, pulmão e colorretal entre homens estão entre os mais incidentes, exigindo tratamentos prolongados, de alto custo e com impacto direto na sinistralidade dos planos de saúde.
Sob a ótica dos custos, os medicamentos oncológicos apresentam valores médios que variam entre US$ 50 e quase US$ 600, patamar superior ao observado em países europeus, onde mecanismos de regulação de preços e reembolso contribuem para maior controle e acesso. Brasil e México apresentam custos relativamente mais baixos, entre US$ 50 e US$ 300, mas ainda enfrentam limitações de acesso e disponibilidade, especialmente no setor público.
“O custo do tratamento oncológico na região não está apenas associado à tecnologia, mas também à forma como os sistemas estão estruturados. A ausência de mecanismos mais robustos de regulação e acesso amplia o desafio para empresas e sistemas de saúde”, afirma Leandro Romani, Diretor Médico da Lockton Brasil.
No Brasil, o impacto ganha escala: o país registrou mais de 627 mil novos casos de câncer em 2022, com estimativas superiores a 700 mil em 2023, enquanto a mortalidade já ultrapassa 250 mil óbitos anuais, segundo GLOBOCAN e INCA.
Esse cenário também se reflete nos custos: desde 2019, os gastos com medicamentos cresceram mais de 180%. Dados da Lockton mostram que os medicamentos oncológicos avançaram 304% em volume e 228% em gastos, passando a representar 18,47% do total farmacêutico.
Na prática, esse movimento posiciona a doença como um dos principais fatores de custo dentro dos planos corporativos. A Pesquisa de Benefícios da Lockton Brasil, em sua 10ª edição, reforça essa tendência ao indicar que, considerando um crescimento médio anual de 12% nos custos de saúde frente a 6% da folha de pagamento, a participação da assistência médica tende a avançar de forma relevante nos próximos anos.
“O que observamos é uma mudança na composição dos custos assistenciais. Doenças de maior complexidade passam a ter maior participação, reduzindo a previsibilidade e exigindo maior estrutura de gestão”, explica Romani.
O impacto também se estende à utilização de serviços de alta complexidade, como internações, terapias prolongadas e medicamentos de alto custo. Esses tratamentos demandam períodos mais longos de cuidado, com reflexos em afastamentos e tempo de recuperação, influenciando a dinâmica das equipes.
Diante desse cenário, o modelo de gestão de benefícios passa a incorporar novas abordagens. O aumento da incidência, a complexidade dos tratamentos e a evolução dos custos ampliam a necessidade de iniciativas voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce, com impacto direto nos desfechos de saúde e na gestão financeira.
“Atualmente, as empresas que avançam nesse contexto são aquelas que estruturam uma gestão integrada de saúde, com foco em prevenção, acompanhamento e uso de dados para a tomada de decisão”, afirma Romani. “Antecipar riscos, nesse cenário, está relacionado à construção de estruturas sustentáveis, capazes de equilibrar o cuidado com as pessoas e a gestão eficiente dos custos”, conclui.
