Por Eduardo Lucena*
Nos últimos anos, o debate sobre riscos empresariais deixou de ser um tema restrito às áreas de compliance ou gestão interna para ganhar espaço nas decisões estratégicas das empresas. Em 2026, essa mudança se tornou ainda mais evidente: fatores climáticos, tecnológicos e geopolíticos passaram a influenciar diretamente investimentos, cadeias produtivas e modelos de operação.
Nesse contexto, o mercado de seguros e resseguros vive uma transformação relevante. Mais do que transferir riscos, a indústria de seguros tem sido chamada a interpretar cenários complexos e ajudar empresas a navegar em um ambiente de crescente incerteza, mostrando que compreender riscos deixou de ser uma atividade defensiva e passou a fazer parte do planejamento estratégico.
Para entender melhor essa mudança, no Brasil encontramos dois cenários que ajudam a explicar a nova dinâmica do mercado, sendo eles os impactos climáticos sobre o agronegócio e a escalada das ameaças cibernéticas.
O agronegócio diante de um novo regime de risco climático
O agronegócio brasileiro segue como um dos principais pilares da economia nacional. Em 2025, a cadeia agroindustrial respondeu por 29,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil em parceria com a Cepea/USP. No mesmo período, a produção de grãos atingiu 354,7 milhões de toneladas, enquanto o Valor Bruto da Produção agropecuária superou R$ 1,4 trilhão.
Ao mesmo tempo em que alcança níveis recordes de produtividade e relevância econômica, o setor enfrenta um ambiente de risco cada vez mais complexo. Eventos climáticos extremos como secas prolongadas, ondas de calor e chuvas intensas tornaram-se mais frequentes e imprevisíveis, afetando diretamente a produtividade, a logística e o planejamento das safras.
Tudo isso impacta diretamente o mercado segurador, uma vez que o aumento da exposição climática eleva a sinistralidade, além de pressionar a necessidade de mais instrumentos de proteção financeira para produtores e empresas da cadeia agroindustrial.
O seguro paramétrico também ganha relevância ao ser diferente dos modelos tradicionais. Este tipo de seguro se baseia em indicadores objetivos, como índices de chuva ou temperatura, para acionar indenizações, permitindo maior previsibilidade e velocidade nos pagamentos, algo fundamental para produtores agrícolas que precisam reagir rapidamente a eventos climáticos extremos.
Além disso, o avanço de novas tecnologias como sensores agrícolas, monitoramento climático e análise de dados cria novas oportunidades para uma gestão de risco mais sofisticada no campo, enquanto para o mercado segurador, abre um novo espaço para o desenvolvimento de soluções mais aderentes à realidade produtiva do país.
O risco digital se tornou um risco econômico
Se o agronegócio simboliza o impacto crescente dos riscos climáticos sobre a economia, a cibersegurança representa a expansão dos riscos digitais sobre empresas e cadeias produtivas, uma vez que o Brasil está entre os países mais visados por ataques cibernéticos no mundo.
Segundo o Relatório do Cenário Global de Ameaças do FortiGuard Labs, da Fortinet, o país registrou 314,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos apenas no primeiro semestre de 2025, concentrando cerca de 84% das atividades maliciosas identificadas na América Latina.
Hoje, um incidente cibernético pode paralisar operações, interromper cadeias produtivas e gerar prejuízos significativos. Além das perdas financeiras diretas, empresas também enfrentam riscos reputacionais, responsabilidades legais e impactos regulatórios relacionados à proteção de dados.
Essa preocupação também se estende ao próprio agronegócio. Segundo estudo global da PwC sobre inovação em agtech, 80% dos executivos do setor demonstram preocupação com riscos associados ao uso de inteligência artificial, percentual superior à média nacional de 74% e à média global de 64%. À medida que o campo se torna mais digitalizado, cresce também a exposição a vulnerabilidades tecnológicas e ataques cibernéticos.
Nesse cenário, seguros cibernéticos passam a desempenhar um papel importante dentro de uma estratégia mais ampla de gestão de riscos. No entanto, eles não funcionam isoladamente: as empresas precisam combinar proteção financeira com análise de vulnerabilidades, governança de dados e planos estruturados de resposta a incidentes.
Um novo papel para o mercado de seguros
Essas transformações revelam uma mudança estrutural no papel do mercado segurador. Antes tradicionalmente associado à transferência de riscos, o setor passa a assumir também um papel consultivo, ajudando empresas a compreender e antecipar cenários complexos, mitigando riscos e eventuais perdas.
Em um cenário complexo, que envolve desde a análise de riscos climáticos e digitais até a avaliação de cadeias produtivas, estruturas operacionais e exposições regulatórias, marcado por volatilidade e interdependência, soluções padronizadas tendem a perder espaço para estratégias personalizadas de proteção e resiliência.
Globalmente, perdas associadas a eventos climáticos extremos já superam US$ 250 bilhões por ano, segundo estimativas de grandes resseguradoras. Ao mesmo tempo, o mercado segurador brasileiro ainda representa cerca de 6% do PIB, patamar significativamente inferior ao observado em economias desenvolvidas, onde o setor ultrapassa 10% da atividade econômica.
Essa diferença revela um espaço importante para o desenvolvimento do mercado de seguros no país. À medida que empresas ampliam sua compreensão sobre riscos estruturais, cresce também a demanda por soluções mais sofisticadas de proteção e gestão. Em um ambiente de negócios marcado por incertezas climáticas, tecnológicas e econômicas, compreender os riscos deixou de ser apenas uma forma de evitar perdas e passou a ser um fator estratégico para garantir competitividade e continuidade das operações.
Eduardo Lucena é Deputy CEO da Lockton Brasil.
