Por Rafael Cecchini Rodrigues
Muitas seguradoras acreditam estar prontas para a era da inteligência artificial porque possuem APIs. Mas há uma diferença abissal entre ter uma API qualquer e ter uma API AI-ready. Deixe-me explicar com uma analogia.
Imagine um robô chef de cozinha com capacidades extraordinárias. Coloque-o em uma cozinha onde os ingredientes não têm rótulos, os utensílios estão inacessíveis e o fogão exige um manual proprietário complexo, e ele será inútil. É exatamente isso que acontece quando tentamos conectar inteligências artificiais (IAs) generativas a sistemas core legados.
Quando uma ferramenta de codificação de IA ou um agente de IA tenta trabalhar com um sistema core típico, três coisas dão errado:
Linguagens proprietárias. A IA foi treinada em padrões globais (Python, REST, JSON). Ela não entende dialetos de fornecedores específicos e, ao tentar decifrá-los, alucina, gerando códigos que parecem corretos, mas falham na execução.
Ausência de uma camada de API real. Sistemas legados podem ter APIs, mas não possuem uma camada de API coerente. APIs legadas costumam ser monolíticas, em que um único ponto de acesso tenta resolver cotação, cálculo e elegibilidade ao mesmo tempo. A IA precisa de operações atômicas, granulares, independentes.
Conhecimento tribal. Se a regra de negócio está na cabeça do programador e não na especificação da API (campos como “flag_R” ou “code_47”), a IA nunca a compreenderá.
O resultado: interfaces bonitas, sem nenhum “seguro” dentro. A IA gera códigos de aplicação belíssimos que, na verdade, não conseguem transacionar seguros. Para resolver isso, a indústria corre para adicionar guardrails que gerenciem a qualidade do código gerado pela IA. Mas a causa raiz não é a IA. É a arquitetura subjacente.
A arquitetura é a resposta, não o remendo. As seguradoras que vão vencer a era da IA são aquelas que operam sobre uma camada de API projetada desde o início para ser usada por agentes de IA e assistentes de programação. Nesse modelo, a própria arquitetura passa a ser o guardrail.
Como isso aparece na prática? APIs atômicas e granulares (não monolíticas). Uma camada de orquestração que compõe essas operações atômicas em fluxos de negócio. Servidores Model Context Protocol (MCP) nativos para que agentes de IA descubram e chamem funções com segurança. Tudo no padrão OpenAPI. O fluxo funciona na primeira tentativa porque, voltando à nossa metáfora, a cozinha está organizada.
Foi assim que construímos o InsureMO. O iComposer transforma APIs atômicas em APIs de negócio reutilizáveis, permitindo que agentes de IA orquestrem busca de produto, cálculo de prêmio, cotação e emissão com governança embutida. A conformidade é tratada no desenho da arquitetura, não acoplada por meio de políticas externas de segurança.
Com mais de 1,2 bilhão de chamadas de APIs diariamente e 500 clientes globais, em mais de 50 países, vemos o que acontece quando a infraestrutura está pronta: a eficiência agêntica, em que a IA tanto constrói quanto opera processos de seguros, deixa de ser ficção científica. As seguradoras que mantêm camadas de integração confusas e proprietárias continuam presas a ciclos de desenvolvimento medidos em meses. As que adotam uma arquitetura projetada para máquinas entregam em minutos.
A tecnologia está disponível. Sua infraestrutura está à altura do desafio?
Rafael Cecchini Rodrigues é General Manager LATAM do InsureMO.
