A importância de apoiar quem constrói o futuro da tecnologia no Brasil

Por Luis Alberto Nogueira

Existe uma discussão recorrente sobre inovação no Brasil que costuma começar pela falta. Falta capital, falta infraestrutura, falta ambição, falta conexão entre universidade e mercado, falta gente técnica. Parte disso é verdade. Mas essa leitura muitas vezes ignora um fato importante: há muita gente boa construindo coisas relevantes antes mesmo de entrar formalmente no mercado de trabalho.

O desafio, portanto, não é apenas formar talentos. É estar perto deles cedo o suficiente.

Recentemente patrocinamos o Claude Impact Lab do Rio. Em um fim de semana, mais de cem engenheiros, pesquisadores e estudantes se reuniram para desenvolver, com dados reais da prefeitura e sob avaliação dos próprios secretários, soluções voltadas à saúde e à segurança pública da cidade. Em poucas horas, ideias que poderiam ficar meses presas em apresentações nasceram funcionais, testáveis e abertas à crítica.

Esse tipo de ambiente deveria interessar a qualquer empresa que queira ser relevante na próxima década. Não apenas pelo impacto dos projetos em si, mas pelo que eles revelam sobre uma geração de talentos que não quer apenas discutir tecnologia. Quer aplicá-la.

Há cerca de dez anos, participei da equipe de aerodesign da PUC-Rio. Éramos um grupo de estudantes tentando responder a uma pergunta aparentemente simples: como fazer um avião pequeno carregar o máximo de peso possível e voltar inteiro ao chão. Fazer um avião não é nada novo. A teoria está nos livros. Ainda assim, transformar teoria em um avião que decola, sustenta voo, faz curva e pousa inteiro foi uma das coisas mais difíceis que já fiz.

Com o tempo, entendi que fazer um avião se parece muito com fazer uma empresa. A teoria está disponível. Há livros, cursos, frameworks, benchmarks, mentorias, cases e palestras. O problema nunca foi apenas o acesso ao conhecimento. O problema é executar bem, em grupo, sob restrição de tempo, orçamento, pressão e incerteza.

É exatamente isso que ambientes como hackathons, laboratórios, ligas universitárias e centros de empreendedorismo ensinam. Eles aproximam jovens talentos da parte menos glamourosa e mais importante da inovação: fazer funcionar. Reúnem gente que escreve código, monta protótipo, conversa com usuário, testa modelo, mede resultado, apresenta, recebe crítica e tenta de novo.

Quando uma empresa decide apoiar esses espaços, ela não está fazendo apenas filantropia institucional ou marketing de marca empregadora. Está investindo na infraestrutura humana que sustenta qualquer ecossistema de inovação. E, na maioria dos casos, está se aproximando dos profissionais que vão definir os próximos ciclos de tecnologia, negócios e impacto no país.

Nos últimos meses, tive contato com várias iniciativas que mostram a força desse caminho: os Behring Fellows, que conectam brasileiros em universidades como Harvard, MIT e Stanford a discussões profundas sobre o país; as Ligas de IA do Insper e do Inteli, que já funcionam como viveiros de engenheiros de machine learning; e o Centro de Empreendedorismo da PUC-Rio, que há mais de uma década forma fundadores. Cada um desses espaços mostra, à sua maneira, que o Brasil tem uma geração disposta a construir.

No Claude Impact Lab do Rio, esse espírito ficou claro. O projeto vencedor foi um sistema de roteamento e prontuário automatizado para Agentes Comunitários de Saúde, profissionais que atendem dezenas de milhares de pessoas na cidade. É o tipo de tecnologia que mais importa: simples, aplicável, construída com cuidado e com impacto direto na ponta.

Esse resultado também diz algo importante sobre inteligência artificial. A IA mais transformadora não será necessariamente aquela que gera mais manchetes, mas aquela que consegue resolver problemas reais, em contextos reais, para pessoas reais. Para isso, não basta conhecer modelos. É preciso entender operação, usuário, dados, restrições, segurança, integração e consequência.

O Brasil tem muita gente disposta a fazer. O que falta, muitas vezes, é a presença consistente de quem já está no jogo: empresas, fundos, universidades, governos, mentores e lideranças dispostas a abrir portas, oferecer contexto, financiar espaços, dar feedback e criar oportunidades reais.

Patrocinar um laboratório, apoiar uma liga, mentorar um grupo de estudantes ou aparecer em um domingo para ouvir projetos pode parecer pequeno diante dos grandes desafios do país. Mas é nesses espaços que muita coisa começa. No fim, apoiar quem constrói é também uma forma de escolher o futuro que queremos ter.

Luis Alberto Nogueira é CEO e cofundador da Segura.