Diagnóstico da NTC&Logística aponta 8.570 ocorrências em 2025; especialistas alertam que falhas na gestão de riscos podem ampliar os prejuízos das transportadoras.
O Brasil registrou 8.570 roubos de carga em 2025, uma redução de 16,7% em relação ao ano anterior. A queda das ocorrências, porém, não eliminou o impacto econômico do crime: o prejuízo direto foi estimado em R$ 900 milhões e pode ter ultrapassado R$ 1 bilhão quando considerados os efeitos indiretos sobre seguros, operações e preços dos produtos.
Os dados fazem parte do Diagnóstico Nacional do Roubo de Cargas, elaborado pela NTC&Logística. O levantamento mostra que a redução do número de crimes não foi acompanhada por uma queda equivalente das perdas suportadas pelas empresas.
Além do valor da mercadoria, entram nessa conta a interrupção das viagens, o remanejamento da frota, os atrasos nas entregas, a contratação de escoltas, a revisão de rotas e os investimentos adicionais em segurança.
O impacto ocorre em um setor responsável por aproximadamente 65% da carga movimentada no Brasil. Ao final de 2025, cerca de 2,8 milhões de veículos estavam vinculados a transportadores cadastrados no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas, o RNTRC, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres.
“O roubo não termina com a perda da mercadoria. Ele interfere no custo do seguro, na disponibilidade dos veículos, nos prazos de entrega e na relação da transportadora com seus clientes. A prevenção deixou de ser apenas um tema de segurança e passou a fazer parte das decisões econômicas da empresa”, afirma Segundo Cruz, CEO da S Corretora de Seguros.
O risco começa antes da estrada
A abordagem do caminhão durante o trajeto é a face mais conhecida do roubo de cargas. Parte da vulnerabilidade, no entanto, pode surgir antes da viagem, durante o planejamento e a liberação do embarque.
Uma carga de eletrônicos, medicamentos ou outros produtos de alto valor pode exigir rastreamento específico, escolta, consulta do motorista, limite de valor por veículo, definição prévia da rota e pontos autorizados de parada. Essas condições variam conforme a operação, o plano de gerenciamento de risco e a apólice contratada.
Quando as informações não chegam à equipe responsável pela expedição, o veículo pode ser liberado sem que todos os procedimentos tenham sido cumpridos.
“O erro mais perigoso nem sempre é a falta de tecnologia. A empresa pode ter seguro, rastreamento e plano de gerenciamento de risco, mas continuar exposta se a informação não chegar a quem recebe a carga, libera o veículo e acompanha a viagem. Uma carga de alto valor pode exigir uma operação completamente diferente, e essa verificação precisa acontecer antes da saída”, diz Vinicius M. Seraco, diretor de Gestão de Risco da SOLIST.
Tecnologia não corrige processo mal definido
Rastreadores e centrais de monitoramento permitem identificar desvios de rota, paradas não programadas, perda de sinal e outras situações fora do padrão. Essas ferramentas, entretanto, dependem de informações corretas sobre a carga e a viagem.
A Solist atende cerca de 400 transportadoras e desenvolveu o SGR, metodologia que reúne análise da operação, treinamento, auditorias e comitês periódicos com os profissionais envolvidos no risco. Segundo a empresa, mais de 4 mil pessoas já foram capacitadas.
Em um dos casos acompanhados, a adoção das medidas propostas reduziu o índice de sinistralidade de 300% para 13%, no período de um ano.
“Seguro e gestão de risco têm funções complementares. O seguro oferece proteção financeira quando ocorre uma perda. A gestão de risco trabalha para reduzir a possibilidade de que essa perda aconteça”, afirma Cruz.
