Por Felipe Ramos*
Reconheça o sinal que o mercado já está dando. O avanço acelerado das
insurtechs no seguro garantia não representa apenas o surgimento de
novos concorrentes, mas uma mudança profunda na forma como o seguro é
distribuído, contratado e percebido pelas empresas. O setor vive
expansão consistente, mas essa expansão ocorre em velocidades
diferentes. Enquanto o modelo tradicional cresce apoiado na estrutura
histórica do mercado, empresas orientadas por tecnologia avançam porque
operam sob uma lógica mais compatível com a economia digital. É preciso
admitir que o crescimento desigual não é casual, ele revela onde estão
as ineficiências acumuladas do setor.
Os dados mostram um mercado relevante, mas ainda pouco modernizado.
Segundo a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), o seguro
garantia movimentou cerca de R$ 6,3 bilhões em prêmios emitidos em 2025,
mais que dobrando de tamanho desde 2020 e mantendo ritmo anual superior
a 20%. Apesar da expansão, o segmento permanece altamente concentrado em
operações ligadas ao setor público, que representam aproximadamente 86%
do volume total, com predominância das garantias judiciais. Eu considero
esse ponto central para entender o fenômeno atual. O mercado cresce
porque há demanda institucional, não necessariamente porque a
experiência do cliente evoluiu na mesma velocidade.
Insurtechs crescem mais rápido porque atacam exatamente esse
desalinhamento operacional. O seguro garantia ainda carrega processos
extensos, análises pouco integradas e dependência elevada de
intermediação manual. Ao digitalizar a jornada e integrar o produto a
plataformas utilizadas pelas empresas, essas novas operações reduzem
tempo, custo e complexidade. O que antes exigia conhecimento técnico
especializado passa a ser acessível dentro do próprio fluxo de negócios.
Na minha leitura, isso transforma o seguro em infraestrutura operacional
e não apenas em uma exigência contratual. Segundo estudo global da
McKinsey sobre o futuro do setor segurador, modelos digitais e embedded
insurance tendem a ampliar significativamente a penetração de seguros
corporativos ao incorporar a proteção diretamente nas transações
empresariais.
Outro fator decisivo é a especialização. Grandes seguradoras operam
múltiplas linhas e precisam equilibrar diferentes estratégias comerciais
e regulatórias. Insurtechs, por outro lado, concentram energia em nichos
específicos, desenvolvendo tecnologia e experiência voltadas para
problemas muito definidos. Eu vejo nisso uma vantagem competitiva clara.
Ao eliminar etapas redundantes e automatizar análises, essas empresas
conseguem escalar com maior eficiência. Não por acaso, projeções de
mercado indicam que operações digitais especializadas vêm registrando
taxas de crescimento significativamente superiores às médias históricas
do setor segurador brasileiro, que giram entre 15% e 20% ao ano,
conforme dados consolidados pela Confederação Nacional das Seguradoras
(CNseg).
Isso não significa que o modelo tradicional esteja condenado. Pelo
contrário, seguradoras continuam indispensáveis pela capacidade técnica
de subscrição e pela solidez financeira necessária para sustentar
grandes riscos. Ainda assim, eu acredito que o eixo da competição mudou.
O diferencial competitivo deixa de estar apenas no balanço e passa a
residir na experiência, na velocidade e na integração tecnológica. O
seguro deixa de depender exclusivamente da venda ativa e passa a ser
encontrado no momento exato da necessidade, reduzindo fricção comercial
e ampliando a demanda de forma orgânica.
Diante desse cenário, o setor precisa escolher entre adaptação ou perda
gradual de relevância competitiva. Invista em integração, simplifique
processos e reposicione o seguro como parte natural das operações
empresariais. Se houver convergência entre a robustez das seguradoras e
a agilidade das insurtechs, o seguro garantia poderá expandir para além
do ambiente público e ganhar escala real no setor privado. Caso
contrário, continuaremos observando um paradoxo: um mercado que cresce
em tamanho, mas demora a evoluir em eficiência. E, em um ambiente
econômico cada vez mais digital, eficiência é o verdadeiro motor do
crescimento sustentável.
