Com indenizações da FIFA que podem chegar a € 7,5 milhões, a Howden Brasil detalha como o mercado de seguros protege clubes e patrocinadores contra lesões na Copa do Mundo.
A convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo reacende o debate sobre os impactos financeiros de lesões de atletas durante o Mundial. Segundo o Club Protection Programme (CPP) da FIFA, a compensação a clubes pode chegar a € 7,5 milhões por jogador lesionado enquanto estiver a serviço de sua equipe nacional. Para a Howden Brasil, filial da corretora global especializada em seguros de alta complexidade, o tema evidencia como a Copa mobiliza mecanismos internacionais de proteção financeira para clubes, patrocinadores e organizadores.
De acordo com a corretora, competições internacionais historicamente geram tensões entre clubes e federações, já que os atletas ficam temporariamente fora do ambiente das equipes responsáveis pelos salários e contratos dos jogadores, aumentando a exposição ao risco físico. O retorno de um atleta lesionado pode comprometer temporadas inteiras, com impactos esportivos e financeiros para os clubes.
Segundo Ricardo Minc, diretor de Esportes, Mídia e Entretenimento da Howden Brasil, o principal mecanismo utilizado para mitigar esse desalinhamento de interesses é o Club Protection Programme (CPP) da FIFA, regulamentado pelo boletim técnico para o ciclo 2023-2026. “O CPP funciona como um mecanismo internacional de reparação financeira. Na prática, ele prevê compensação aos clubes quando um jogador sofre uma lesão decorrente de acidente enquanto está a serviço de sua seleção nacional”, explica.

No entanto, Minc ressalta que o funcionamento do programa segue uma lógica diferente da adotada pelo mercado tradicional de seguros no Brasil. “Muitas apólices brasileiras discutem a impossibilidade genérica de exercer uma profissão. No caso do CPP, a cobertura aplica-se exclusivamente a situações de Temporary Total Disablement (TTD), ou seja, à incapacidade temporária do atleta para exercer sua atividade profissional como jogador de futebol de alto rendimento. Além disso, existe um período de carência de 28 dias consecutivos de afastamento antes que a compensação financeira ao clube possa ser aplicada”, detalha.
Casos recentes ilustram como essas estruturas entram no radar dos clubes durante competições internacionais. Após a grave lesão do atacante Pedro em período a serviço da Seleção Brasileira, em setembro de 2024, o debate sobre eventual compensação via mecanismos da FIFA ganhou repercussão no mercado esportivo. Em Copas anteriores, situações envolvendo atletas como Gabriel Jesus e Alex Telles também chamaram atenção para os impactos financeiros de lesões sofridas durante convocações nacionais.
Apesar da importância do CPP, o programa da FIFA possui limites financeiros e restrições que podem ser insuficientes para atletas de elite, explica Minc. “O mecanismo deixa lacunas, como ausência de cobertura para invalidez permanente, morte acidental e natural e despesas médicas. É nesse cenário que o mercado internacional de seguros e resseguros atua com apólices complementares acima dos limites do programa da FIFA, oferecendo proteção para perda de valor econômico dos atletas, lucros cessantes e invalidez permanente.”
Riscos além do gramado
A gestão de riscos da Copa do Mundo, contudo, vai além da proteção aos atletas. Segundo Minc, o evento envolve uma ampla cadeia de riscos operacionais, financeiros e tecnológicos, exigindo coberturas de specialty insurance para organizadores, emissoras, patrocinadores e fornecedores. As apólices podem incluir desde cancelamento de partidas por condições climáticas severas até riscos ligados a terrorismo, sabotagem, violência política, greves, falhas de transmissão, interrupções de energia elétrica e ataques cibernéticos.
Para o diretor da Howden Brasil, essa engenharia financeira é essencial para a sustentabilidade do esporte, já que poucos minutos de interrupção podem gerar prejuízos milionários em cadeia. “A Copa do Mundo envolve uma operação global de alta complexidade. O papel do mercado de seguros e resseguros é garantir que, por trás do espetáculo, exista uma rede de proteção capaz de absorver perdas críticas e permitir a realização do torneio.”
