Por Ronald Macedo Torres
Há uma linha invisível que conecta tudo o que consumimos. Da cesta básica ao medicamento, do componente industrial ao produto do e-commerce que chega à nossa porta. Esse fio é o transporte de cargas e, por trás dele, existe uma estrutura de gestão de riscos que, nas últimas décadas, deixou de ser uma exigência burocrática para assumir papel central na logística brasileira.
Acompanhar essa mudança é testemunhar não apenas o desenvolvimento de uma modalidade de seguro, mas também o amadurecimento de um mercado que passou a compreender o valor da antecipação de problemas e da redução de incertezas para o funcionamento da economia.
Durante muito tempo, o seguro de transportes foi tratado principalmente como uma obrigação contratual voltada à mitigação de perdas. Hoje, ocupa uma função muito mais relevante. Em um contexto marcado por cadeias logísticas mais complexas, maior exposição a eventos inesperados e pressão crescente por eficiência, a capacidade de antecipar problemas e reduzir incertezas tornou-se diretamente associada à competitividade das empresas e à continuidade de suas atividades.
A relevância dessa discussão está diretamente relacionada ao papel que o transporte de cargas desempenha no funcionamento do país. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o modal rodoviário responde por cerca de 65% da movimentação de mercadorias no Brasil. Em um cenário de tamanha dependência das rodovias, qualquer interrupção, atraso ou perda gera reflexos em toda a cadeia produtiva. Não por acaso, estudo do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) aponta que os custos logísticos representam 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB), evidenciando o peso da movimentação de mercadorias sobre a competitividade das empresas. Esse quadro ajuda a dimensionar os desafios enfrentados pelas organizações e reforça a necessidade de ferramentas capazes de ampliar a capacidade de planejamento e reduzir impactos ao longo da circulação de mercadorias.
Com o amadurecimento desse mercado, o seguro deixou de ser visto apenas como um requisito administrativo e passou a integrar decisões diretamente relacionadas à eficiência e à sustentabilidade dos negócios. Essa mudança ocorreu de forma gradual, inicialmente entre as grandes corporações, depois nas médias empresas e, mais recentemente, nas operações fracionadas e entre transportadores autônomos.
Paralelamente, corretoras especializadas ganharam protagonismo ao apoiar embarcadores e transportadores na identificação de fragilidades, na definição das coberturas mais adequadas e na construção de soluções compatíveis com a complexidade de cada atividade. Para muitas organizações, principalmente as de pequeno porte, esse suporte tornou-se indispensável diante da crescente sofisticação da cadeia de abastecimento.
A trajetória do seguro de transportes nunca ocorreu de forma linear. Em diferentes períodos, foi impulsionada por fatores distintos, desde momentos de maior exposição a perdas até transformações econômicas que remodelaram a produção, a distribuição e os hábitos de consumo. Em comum, todas essas etapas demonstraram que antecipar cenários e administrar incertezas continuam sendo diferenciais importantes para a sustentabilidade das atividades empresariais.
O transporte de cargas seguirá desempenhando papel decisivo em um ambiente marcado pela expansão do comércio eletrônico, pela integração dos mercados e pela digitalização dos negócios. Nesse contexto, o seguro amplia sua relevância ao oferecer estabilidade operacional e suporte à tomada de decisões. Mais do que resguardar mercadorias em trânsito, sua contribuição está diretamente ligada à capacidade das empresas de crescer, investir e operar com confiança em um ambiente cada vez mais complexo, no qual eficiência, continuidade e capacidade de antecipação se tornaram fatores decisivos para a competitividade.
Ronald Macedo Torres é diretor executivo de Seguros da Rodobens.
