Consórcio deixa de ser plano B e atinge 13 mi de clientes

Busca por planejamento financeiro e aquisição de bens sem a cobrança de juros impulsiona a modalidade no país.

Durante muito tempo, o consórcio foi associado principalmente à compra de carros e motocicletas por consumidores que não tinham pressa para receber o bem. Esse perfil, porém, está mudando. Com a ampliação das opções disponíveis e a busca por formas mais planejadas de aquisição, a modalidade passou a ocupar espaço também na compra de imóveis, reformas, equipamentos e contratação de serviços.

Em 2026, o Sistema de Consórcios ultrapassou a marca de 13 milhões de participantes ativos, novo recorde do setor. Mais de quatro em cada dez consorciados ainda estão no segmento de veículos leves, que reúne aproximadamente 5,53 milhões de participantes, mas o consórcio imobiliário vem apresentando um dos crescimentos mais expressivos. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios, a ABAC, mostram que, entre janeiro e abril, foram comercializadas 557,49 mil cotas de imóveis, volume superior ao registrado pelo segmento de motocicletas no mesmo período.

Para Gustavo Zanon, CEO da Seguralta, o crescimento indica uma mudança no comportamento do consumidor, que passou a enxergar o consórcio como uma ferramenta de organização financeira. “O consórcio deixou de ser procurado apenas por quem quer trocar de carro. Hoje, muitas pessoas utilizam a modalidade para planejar a compra de um imóvel, uma reforma ou outro projeto que pode ser construído ao longo do tempo. É uma decisão que exige disciplina e clareza sobre o objetivo”.

No acumulado dos cinco primeiros meses de 2026, o setor registrou 2,36 milhões de novas adesões, crescimento de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. Somente o segmento de veículos leves comercializou mais de R$ 61 bilhões em créditos no período.

Um dos fatores que ajudam a explicar esse avanço é o custo do crédito tradicional. A taxa Selic, que serve de referência para os juros de empréstimos e financiamentos, permaneceu em patamar elevado ao longo de 2026, apesar das reduções promovidas pelo Banco Central.

Diferentemente do financiamento, o consórcio não cobra juros sobre o valor da carta de crédito. Isso, entretanto, não significa que a operação seja gratuita. O participante paga taxa de administração e pode ter outros custos previstos no contrato, como fundo de reserva e seguro.

Segundo Gustavo, analisar apenas o valor da parcela é um dos erros mais comuns cometidos pelos consumidores. “É importante observar o custo total, o prazo do grupo, o valor da taxa de administração e as condições para ofertar lances. Uma parcela que parece confortável no início precisa continuar cabendo no orçamento durante todo o contrato”.

Consórcio não é compra imediata

Outro ponto que precisa ser compreendido é que a contratação de uma cota não garante o recebimento imediato do crédito. A contemplação ocorre por sorteio ou lance, conforme as regras de cada grupo.

Por isso, a modalidade costuma ser mais adequada para quem consegue planejar a compra e não depende do bem ou do serviço em uma data determinada. “O consumidor precisa entender que consórcio não é financiamento e não existe promessa legítima de contemplação imediata. Quem tem urgência deve avaliar outras possibilidades. O consórcio funciona melhor quando o prazo faz parte do planejamento”, afirma Gustavo.

O executivo também recomenda verificar se a administradora é autorizada e fiscalizada pelo Banco Central, além de desconfiar de propostas que garantam contemplação ou apresentem condições muito diferentes das praticadas pelo mercado.

Imóveis ganham espaço

O consórcio imobiliário foi um dos destaques de 2025 e mantém trajetória de crescimento em 2026. No ano passado, o segmento movimentou aproximadamente R$ 283,53 bilhões em créditos comercializados, alta de 48,4% sobre 2024. Para este ano, a ABAC projetou crescimento de até 25% nas vendas de cotas imobiliárias.

Além da compra de imóveis residenciais ou comerciais, a carta de crédito pode ser utilizada, conforme as regras do contrato, para aquisição de terrenos, construção, reformas e até quitação de financiamento imobiliário. O consórcio também vem sendo cada vez mais utilizado por quem já possui um imóvel e busca ampliar o patrimônio, seja para adquirir uma segunda propriedade, investir ou diversificar seus ativos.

Para Gustavo, a expansão mostra que o brasileiro está diversificando a forma como usa o consórcio, mas o crescimento também exige mais informação. “Quanto mais o setor cresce, maior deve ser o cuidado com a orientação ao consumidor. O consórcio pode ser uma ferramenta eficiente de planejamento, desde que a pessoa conheça as regras, tenha capacidade financeira e escolha uma operação compatível com o que pretende realizar”.

Mais do que encontrar uma parcela menor, a decisão deve considerar prazo, objetivo e previsibilidade. O consórcio pode ajudar a transformar planos em patrimônio, mas não substitui a necessidade de comparar alternativas e entender todas as condições antes da assinatura do contrato.