Seguro paramétrico no agro e o futuro do seguro rural

Por Daniel Miquelluti

O seguro rural brasileiro vive um momento de forte pressão. A área segurada no país, que chegou a aproximadamente 13,45 milhões de hectares em 2021, recuou para cerca de 3,2 milhões de hectares em 2025, segundo levantamento do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV. Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos se tornaram mais frequentes, o crédito rural ficou mais seletivo e a margem do produtor segue pressionada por custos elevados, juros altos e maior volatilidade de preços.

Esse cenário recolocou o seguro paramétrico no centro das discussões sobre o futuro da proteção agrícola no Brasil. A proposta é, de fato, atraente: em vez de depender exclusivamente da vistoria de perda em campo, a indenização é vinculada a um índice objetivo, previamente definido em contrato. Esse índice pode estar associado, por exemplo, ao volume de chuva, à temperatura, ao déficit hídrico, ao excesso de precipitação ou a outra variável mensurável relacionada ao risco que se pretende cobrir.

Quando o índice atinge determinado gatilho, a indenização é calculada conforme a regra contratada. Em tese, isso reduz a fricção operacional, torna o processo mais transparente, diminui a dependência de etapas presenciais de regulação e permite pagamentos mais rápidos. Em regiões onde o seguro tradicional enfrenta dificuldade de escala, custo operacional elevado ou baixa disponibilidade de oferta, essa estrutura pode representar um avanço relevante.

No entanto, a simplicidade aparente do seguro paramétrico não deve esconder a complexidade técnica necessária para que ele funcione corretamente. O ponto central não é apenas pagar rápido. É pagar de forma coerente com a perda econômica que se pretende proteger. Essa distinção é fundamental.

Um produto paramétrico não é bom apenas porque possui um índice objetivo. Ele é bom quando esse índice representa adequadamente o risco produtivo ou financeiro do segurado. Se essa relação for fraca, o produto pode gerar distorções importantes: pagar quando a perda real foi pequena, deixar de pagar quando a perda foi relevante ou indenizar em intensidade diferente do impacto efetivo observado na operação agrícola. Esse desalinhamento é conhecido como risco de base.

A diferença entre uma solução paramétrica bem desenhada e uma solução frágil está justamente na capacidade de reduzir esse risco de base a um nível aceitável. Para isso, é necessário trabalhar com séries históricas consistentes, dados auditáveis, boa resolução espacial, critérios claros de tratamento de falhas, validação retrospectiva e metodologia transparente de calibração dos gatilhos.

Também é indispensável respeitar a realidade agronômica de cada cultura e região. A mesma quantidade de chuva acumulada pode ter efeitos muito diferentes dependendo do tipo de solo, da fase fenológica da cultura, da época de plantio, da cultivar utilizada, da profundidade radicular, do manejo adotado e da capacidade de retenção de água no perfil do solo. Um índice que funciona bem para determinada cultura, região ou janela de risco pode não ter a mesma aderência em outro contexto.

Por isso, o seguro paramétrico não deve ser tratado como substituto automático do seguro agrícola tradicional. Ele é uma ferramenta complementar, com aplicação situacional. Pode ser muito eficiente quando o risco é mensurável, a variável escolhida tem relação demonstrável com a perda e o produtor entende claramente o que está sendo protegido. Em outros casos, modelos tradicionais, vistorias em campo ou estruturas híbridas podem continuar sendo mais adequados. A maturidade do mercado está justamente em reconhecer essas diferenças.

Outro ponto essencial é a governança. Um produto paramétrico não termina no momento do lançamento. Índices precisam ser monitorados ao longo do tempo. Bases de dados devem ser acompanhadas. Critérios de acionamento precisam ser avaliados periodicamente. Mudanças climáticas, alterações no calendário agrícola, deslocamentos regionais de risco e evolução tecnológica dos sistemas produtivos podem exigir recalibração. Sem essa governança, o produto pode parecer moderno na forma, mas ficar progressivamente desconectado da realidade do campo. Esse é um risco importante, especialmente em um mercado que ainda busca ampliar a confiança do produtor no seguro rural.

O Brasil não precisa apenas de produtos inovadores. Precisa de instrumentos capazes de transformar dados em decisão econômica confiável. No caso do seguro paramétrico, isso significa que a inovação deve vir acompanhada de rigor técnico, clareza contratual e responsabilidade na comunicação com o segurado. O produtor precisa compreender não apenas quando o seguro paga, mas também quando ele não paga. Precisa entender qual risco está sendo transferido, qual risco permanece dentro da operação e como o índice contratado se relaciona com sua exposição real. Sem essa transparência, mesmo um produto tecnicamente bem estruturado pode gerar frustração no momento mais sensível: a ocorrência de uma perda.

A expansão do seguro rural brasileiro exigirá diferentes instrumentos. O seguro tradicional continuará tendo papel relevante. O seguro paramétrico pode ampliar acesso, reduzir custos operacionais e criar possibilidades de cobertura. Modelos híbridos também tendem a ganhar espaço, combinando eficiência de índices objetivos com mecanismos de validação mais próximos da realidade individual do produtor. A questão, portanto, não é escolher entre o seguro tradicional e o paramétrico. A pergunta correta é: em que situações cada estrutura melhora a proteção econômica do produtor e contribui para a sustentabilidade do sistema?

Quando desenhado com dados consistentes, aderência ao risco real e governança contínua, o seguro paramétrico pode ser uma ferramenta importante para ampliar a cobertura agrícola no Brasil. Quando tratado como atalho para resolver problemas estruturais do mercado, tende a produzir o efeito oposto: frustração, contestação e perda de confiança.

O futuro do seguro rural não será definido apenas pela velocidade do pagamento ou pela sofisticação aparente dos produtos. Será definido pela capacidade de construir soluções tecnicamente sólidas, economicamente úteis e compreensíveis para quem toma risco no campo. No seguro paramétrico, dados e governança não são diferenciais acessórios. São a base da confiança.

*Daniel Miquelluti é cofundador e Head de Novos Mercados da Picsel.