Por Eduardo Canicoba e Fernando Marinangelo*
A inteligência de dados viabilizada pela telemetria deixou de ser um recurso associado apenas ao transporte rodoviário e passou a ocupar um papel mais amplo na gestão de ativos, ao trazer mais previsibilidade, segurança e eficiência para a gestão operacional. Nos terminais marítimos, esse avanço se torna particularmente relevante em um momento de crescimento da movimentação portuária no Brasil.
Um levantamento do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), com base em dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), mostra que os portos do país movimentaram 378,2 milhões de toneladas apenas no terceiro trimestre de 2025. No mesmo intervalo, o transporte em contêineres somou 42,5 milhões de toneladas, com alta de 6,5% na comparação anual, mantendo desempenho acima da média do sistema.
Esse aumento no fluxo de contêineres ajuda a explicar por que a visibilidade sobre o uso dos ativos vem ganhando ainda mais relevância no dia a dia dos terminais. Como concentram mercadorias industrializadas, bens de consumo e insumos de alto valor unitário, contêineres exigem maior precisão no manuseio e controle mais rigoroso das manobras nas atividades internas. Nesse contexto, pequenos desvios passam a afetar diretamente custos, integridade da carga e disponibilidade operacional.
Ao mesmo tempo, boa parte das decisões sobre manutenção, alocação de recursos e definição de rotinas de trabalho ainda se apoia em métricas gerais, como horas totais de uso, apontamentos de turno e registros de manutenção corretiva. Esses parâmetros ajudam a acompanhar a atividade em linhas gerais, mas dizem pouco sobre como o uso se distribui ao longo do dia e sob quais condições.
Os equipamentos de movimentação atuam em ambientes com pisos irregulares, rampas, curvas fechadas, umidade e maresia — condições que aceleram o desgaste mecânico, elevam o consumo de combustível e aumentam o risco de incidentes. Ainda assim, esse conjunto de fatores raramente entra de forma sistemática na gestão.
Sem uma leitura estruturada do uso do maquinário, o retrato da atividade fica incompleto. Decisões de manutenção, segurança e alocação de recursos deixam de refletir como os ativos são empregados no dia a dia e passam a responder a falhas, incidentes ou desvios depois de ocorridos. Para que o acompanhamento seja consistente, é necessário reunir dados operacionais confiáveis — com a telemetria registrando, ao longo da jornada, o desempenho das máquinas e os padrões de condução do condutor.
Esse grau de visibilidade se consolida quando o terminal incorpora tecnologias capazes de observar o que antes não era mensurável. Em iniciativas recentes realizadas em portos brasileiros, a telemetria embarcada, combinada a recursos de videotelemetria e a sensores voltados ao registro de movimentos de içamento, permitiu observar em tempo real quantas elevações de carga são realizadas, quanto tempo os equipamentos permanecem em cada área, quais velocidades são praticadas e sob que condições ocorrem manobras críticas. Essa leitura transforma registros em base efetiva para decisões sobre segurança, produtividade e gestão de risco.
A necessidade de tornar o uso dos ativos mais visível e rastreável não se limita ao contexto brasileiro e acompanha o aumento dos investimentos globais em automação, sensores e sistemas digitais voltados ao ambiente portuário. Estimativas da Market Research Future indicam que o mercado global de telemetria aplicada a veículos e equipamentos portuários deve movimentar US$ 4,77 bilhões até 2033, enquanto o segmento de smart ports pode alcançar cerca de US$ 19,9 bilhões até 2028, de acordo com a MarketsandMarkets. Esse movimento tem sido impulsionado pela adoção de sensores, conectividade IoT e plataformas de análise de dados, que deixam de ser experimentais e passam a estruturar a rotina nos terminais.
Com esse detalhamento, padrões no uso dos ativos — antes diluídos em leituras fragmentadas — se tornam mais evidentes. Assim, eventos como desgaste acelerado, consumo elevado ou incidentes recorrentes passam a ser compreendidos como consequência de práticas específicas, e não como ocorrências isoladas ao longo do tempo.
Essa leitura mais consistente tem efeito direto sobre a gestão de risco. Ao permitir diferenciar falhas humanas de condições do ambiente ou do próprio maquinário, dados organizados e analisados de forma sistemática ajudam a compreender incidentes com mais precisão, o que também qualifica a relação com seguradoras e o atendimento a exigências regulatórias.
Na prática, essa mudança altera o modo como o terminal organiza suas prioridades. Informações que antes só apareciam após falhas ou incidentes passam a integrar o acompanhamento contínuo do dia a dia. Com isso, a gestão ganha mais previsibilidade sobre a execução das atividades e o desempenho das equipes, reduzindo improvisos, custos operacionais e decisões tomadas sob pressão.
O avanço da movimentação portuária no Brasil já é um dado concreto. O desafio que se coloca não está apenas em sustentar esse volume, mas em qualificar a forma como a atividade é compreendida e conduzida no dia a dia. À medida que o contexto se torna mais exigente, a visibilidade operacional deixa de ser um diferencial pontual e passa a se consolidar como base para uma gestão capaz de lidar, de forma integrada, com custo, segurança e previsibilidade — desde que sustentada por dados operacionais confiáveis e tecnologias capazes de orientar decisões.
*Eduardo Canicoba é vice-presidente da Geotab Brasil e Fernando Marinangelo é Gerente de Negócios da Ariasat

